sexta-feira, 4 de julho de 2008

Benditos! - Machado de Assis

Benditos os que possuem amigos,
os que os têm sem pedir,
Porque amigos não se pede,
não se compra nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos,
os que falam com o olhar,
Porque amigo não se cala
não questiona nem se rende,
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos,
os que entregam o ombro pra chorar,
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora
pra consolar!

Benditos sejam os amigos
que acreditam na tua verdade,
ou te apontam a realidade,
Porque amigo é a direçãoé a base,
quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos
de raízes, verdadeiros,
Porque amigos são herdeiros
da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

terça-feira, 1 de julho de 2008

Um ótimo livro

Acabei de ler um livro lindo que recomendo a todos: A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, o mesmo autor de O caçador de Pipas. Rico em detalhes e lembranças. Uma história envolvente e sofrida. Ela aguçou, ainda mais, minha sensibilidade. Só para você sentir o gostinho transcrevo dois trechos do livro que mexeram com minhas emoções.

“Como um amante da arte fugindo de um museu em chamas, agarrava o que podia – um olhar, um sussurro, um gemido -, buscando preservá-lo, evitar que desaparecesse. O tempo porém é o mais inclemente dos incêndios e, afinal, não deu para salvar tudo, Mas ela conseguiu guardar algumas coisas.”

“Ela bem sabe que, para a filha, as preces são uma forma de lembrar Mariam, de continuar a manter viva aquela lembrança mesmo que o tempo siga o seu curso e que acabe eliminando Mariam do jardim de sua memória, como uma plantinha arrancada pela raiz.”

Etelvina de Oliveira

Apenas saudade

Houve um tiro.
Um disparo no meio da noite, ceifa-se uma vida, uma história.
Não houve depois um caminho.
Não importa mais a mão que segurava a arma ou os motivos. Acabou.
Daquele momento em diante nunca mais um sorriso, um aceno.
Nunca mais a insistência daquele último beijo, o abraçar as crianças, aquela despedida cheia de volta.
Faz quanto tempo mesmo?
Quem apagou a luz?
Quem eram aquelas pessoas de luto?
O que aconteceu com os anos?
Quando parei de culpar-te por ires embora?
Cada novo tiro, cada nova morte lembro-me de ti. Parece que a dor do outro ascende em nós a nossa própria.
Nesse momento tem outras pessoas chorando de dor pela perda.
Não choro. Sinto saudades.
Saudades do antes, dos risos, dos olhares, da cumplicidade, do companheirismo, da rápida passagem por nossas vidas.
Em cada um deixas-te uma marca.
Em todos, deixas-te a lembrança de afeto, atenção e união.
Te vejo nos teus frutos.
Não consigo odiar a morte nem o quê mata.
Na verdade, o que sangra é a vida que passa.

Etelvina de Oliveira

em memória de Silas Carvalho de Moura - 1963/1994